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Marcelino dos Santos

por Machaca, Terça-feira, 28.02.12

MARCELINO DOS SANTOS

Poeta e político moçambicano, Marcelino dos Santos, ou Kalungano ou Lilinho Micaia como era conhecido, nasceu a 20 de Maio de 1929, no Lumbo, em Moçambique. Interessante e reconhecido poeta e activista político moçambicano, cedo se integrou na sociedade portuguesa vindo para Lisboa fazer os seus estudos superiores.

 

Jovem conhecedor e preocupado com as realidades do povo moçambicano, Marcelino dos Santos inicia a sua participação na Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa - uma organização oficiosa forçosamente afastada do fim que lhe fora destinado pelo Governo Português por gerações de estudantes africanos que a "transformaram" na mais potente e especial plataforma para a difusão e divulgação dos autores africanos que era impossível, então, editar em África.

Os textos de Marcelino dos Santos descrevem a sorte do colonizado, vítima da sociedade e impossibilitado de atingir um meio de libertação, mas extremamente crente na hipótese de virar o seu destino e passar de perseguido a perseguidor.

O mundo imposto ao homem negro - no caso moçambicano - é um mundo dividido, injusto, em que as vozes levantadas até então falam "levemente" de uma forte desadaptação, injustiça, mas fazem-no inspirados unicamente por um sentimento humanitário e naturalmente sem encarar nem preconizar a violência. De facto, mesmo vivendo num mundo dividido, com a família amplamente espartilhada, define-se o drama do colonizado sem que, mesmo assim, se ouça o apelo à revolta.

Em contrapartida, e abrindo uma linha perfeitamente antitética, o canto de Marcelino dos Santos já não é aquele canto da chamada "poesia mulata", que procurava uma identificação, uma autenticidade própria, uma definição da terra. Mais avançado e confrontado com outros condicionalismos sócio-políticos, outra África, enfim, Marcelino dos Santos contrapunha uma poesia que perspectivava uma situação e uma massificação de vontades verdadeiramente moçambicanas.

 

Já dentro da época de guerrilha, da luta armada em Moçambique, Marcelino dos Santos, agora liberto do pesadelo da censura, levanta a voz e o gesto que proclamavam a destruição material dos demónios do colonialismo, na mais pura tentativa de cantar a libertação, chegando mesmo a dizer, num dos seus mais marcantes poemas, "sim mamã/é preciso/é preciso plantar//pelos caminhos da liberdade/a nova árvore/da Independência Nacional/".

Marcelino dos Santos estava plenamente consciente de que a verdadeira tarefa do poeta da época devia ser a de examinar e manifestar da forma mais coerente aqueles sentimentos que - mesmo não existindo em estado "puro", porque envoltos numa atmosfera artificial, subjugadora - representam o mais exacto ponto onde se podem concentrar e cruzar todas as manifestações, significações e potencialidades de uma personalidade própria, tipicamente moçambicana.

Assim, Marcelino dos Santos recorre ao estado mais puro de sentimentos: a infância. Regressar à infância, à sua envolvência e ao seu tempo, é regressar ao passado, invocando uma relação com a Natureza, a Terra, as Raízes, solidificando, assim, as estruturas existentes para definir o presente e arquitectar o futuro.

Desta forma, cingindo-se ao amplo conceito da Mãe-Negra, Mãe-África, define uma posição muito concreta na poesia moçambicana: uma posição combativa, da mais pura reivindicação. Esta postura vai, verso a verso, reflectindo uma crescente consciência política que Marcelino dos Santos amadurece e transporta para uma prática real onde se afirma porta-voz de uma profunda radicação nacional.

Assim se entende como Marcelino dos Santos aparece como impulsionador da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) delineando as bases que lhe deram origem. Chegou mesmo a ser o seu Vice-Presidente, passando depois a desempenhar altas funções no Governo Moçambicano tais como, depois da independência de Moçambique, foi o primeiro Ministro da Planificação e Desenvolvimento, cargo que deixou em 1977 com a constituição do primeiro parlamento do país (nessa altura designado “Assembleia Popular”), do qual foi presidente até à realização das primeiras eleições multipartidárias, em 1994.

Marcelino dos Santos, que a militância política teria deslocado da produção poética de substracto profundamente moçambicano, é ainda hoje considerado como uma das vozes mais significantes da afirmação de uma poesia realmente Moçambicana.

Com os pseudónimos Kalungano e Lilinho Micaia tem poemas seus publicados no Brado Africano e em duas antologias publicadas pela Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa. Com o seu nome oficial, tem um único livro publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos, em 1987, intitulado “Canto do Amor Natural".

 

NAMPIALI

 

Verde carmim azul e violeta

 e nós

marchando no planalto

 

Em baixo

o vale

e as machambas de Nachinhoco

 

Mais longe

nas encostas do Nampiali

as árvores

verde carmim azul e violeta

enchem os nossos olhos

 

É já o por do sol

 

Vamos marchando

e as vozes vão cantando

 

         “somos soldados

         da FRELIMOOO...”

 

Verde carmim azul e violeta

e nós

marchando no planalto

seguindo sempre para além

 

verde carmim azul e violeta

 

Aqui os portugueses foram esmagados

 

Aqui os portugueses não voltarão

 

Agora nascem os campos de produção

 

Nós

marchando no planalto

seguindo sempre para a frente

e as vozes cantando

 

         “Decididos

         Nós lutaremos...”

 

Nós

marchando no planalto

seguindo para além

 

e sempre nos nossos olhos

as cores suaves e doces

de verde carmim azul e violeta

na paisagem quente

da terra livre de Moçambique

 

 

 

SONHO DE MÃE NEGRA

 

Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Que o milho já a terra secou

Que o amendoim ontem acabou.

 

Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho irá à escola

À escola onde estudam os homens  

 

Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Os seus irmãos construindo vilas e cidades

Cimentando-as com o seu sangue

Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho correria na estrada

Na estrada onde passam os homens

 

Mãe negra

Embala o seu filho

E escutando

A voz que vem do longe

Trazida pelos ventos

 

Ela sonha mundos maravilhosos

Mundos maravilhosos

Onde o seu filho poderá viver.

 

 

 

É PRECISO PLANTAR

 

 É preciso plantar

mamã

é preciso plantar

 

é preciso plantar

nas estrelas

e sobre o mar

 

nos teus pés nus e pelos caminhos

 

é preciso plantar

 

nas esperanças proibidas

e sobre as nossas mãos abertas

 

na noite presente

e no futuro a criar

 

por toda a parte

mamã

 

é preciso plantar

 

a razão

dos corpos destruídos

e da terra ensanguentada

da voz que agoniza

e do coro de braços que se erguem

 

por toda a parte

por toda a parte

por toda a parte mamã

 

por toda a parte

é preciso plantar

a certeza

do amanhã feliz

nas caricias do teu coração

onde os olhos de cada menino

renovam a esperança

 

sim mamã

é preciso

é preciso plantar

 

pelos caminhos da liberdade

 

a nova árvore

da Independência Nacional.

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por Machaca às 13:00



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